Terça, 07 de Setembro de 2010
 
 
Publicado no JC em 03.12.2009 - 03-12-2009 15:08:00
OS 50 ANOS DO MOVIMENTO DE CULTURA POPULAR - MCP
"O Movimento de Cultura Popular (MCP) nasceu da miséria do povo do Recife. De suas paisagens mutiladas. De seus mangues cobertos de mocambos. Da lama, dos morros e alagados, onde crescem o analfabetismo, o desemprego, a doença e a fome...". Foi assim, como uma foto da realidade vivida pelo recifense entre a década de 50 e 60, que Germano Coelho definiu a origem do MCP. Movimento que, inspirado em valores iluministas, vislumbrou democratizar a educação e a cultura. O MCP tornou-se referência nacional, levando à população mais oprimida e humilde da cidade não apenas arte e alfabetização, mas consciência política e formação intelectual.

Em 59, o MCP era debatido e idealizado pelos seus fundadores, entre eles Germano Coelho, que viria a ser o primeiro presidente do MCP, institucionalizado em 13 de maio de 1960, no Arraial do Bom Jesus, no Sítio da Trindade, Casa Amarela, local identificado com o próprio movimento por sua história de libertação do povo pernambucano. Intelectuais, artistas, acadêmicos e políticos uniram-se em torno de uma causa comum, a de levar ao povo educação, arte, saúde e cultura, promovendo a inclusão social. Abelardo da Hora, Anita Paes Barreto, Paulo Rosas, Argentina Rosas, Paulo Freire, Francisco Brennand, Ariano Suassuna, Norma Porto Carrero, Hermilo Borba Filho, Silke Weber, José Cláudio, Ângela Coelho Vieira, Mário Câncio, Francisco Julião, Geninha da Rosa Borges, Teca Calazans, Luiza Félix, Cristina Tavares, Magdalena Arraes, William Pinheiro, Joacir Castro, Luciano Siqueira e tantos outros homens e mulheres, cidadãos comuns, uniram-se em torno de um único objetivo.

Letícia Rameh Barbosa narra de forma bela em sua tese de doutorado a história do MCP, seu alcance social e este objetivo comum de "servir aos mais carentes e desprotegidos" (tese que se transformou no livro Movimento de Cultura Popular: impactos na sociedade pernambucana).
Com tamanha identidade e força, e com o apoio decisivo do então prefeito Miguel Arraes, o MCP se alastrou pelas comunidades carentes, alfabetizando e promovendo cidadania. Preocupava aos setores conservadores da sociedade a visível escalada de um novo modelo de educação e cultura, inclusionário e libertador. Ameaçador, portanto.
E assim, em março de 1964, o golpe militar findou o trabalho do MCP, fechando suas instalações, cercando o Sítio da Trindade, queimando documentos, perseguindo e torturando vários de seus integrantes.

O coro do Hino do MCP dizia: "Desde os cerros longínquos ao mangue/ Vede um povo aprendendo, de pé/ Uma língua de heróis, esta língua/ Com seus cantos de luta e de fé". A atuação do MCP quando de seu fechamento impressionava. Mais de 30 mil alunos alfabetizados, entre crianças, jovens e adultos, 414 escolas, bibliotecas públicas, escolas de formação, escola radiofônica, círculos de leitura, teatro, cinema e exposições de arte abertas ao público.

Por tudo, a Câmara dos Deputados aprovou meu requerimento para que seja realizada uma sessão solene de homenagem ao MCP. Marcada para março de 2010, a solenidade servirá para nos revigorar com os ideais daqueles que construíram tão importante passagem da história de Pernambuco.

Maurício Rands é deputado federal