Quinta, 09 de Setembro de 2010
 
 
00-00-2005
O mensalão de todos nós
Pedro Paulo Rodrigues Cardoso de Melo

Numa tarde de sexta-feira, recebi um telefonema de um amigo me convidando para ir a um churrasco na sua casa. O churrasco seria a despedida de um outro amigo nosso que havia sido transferido de cidade. Acontece que na naquela noite eu tinha que dar aula na faculdade. Como solucionar o problema? Bem, eu agi como, geralmente, todos nós agimos: fiz de conta que estava cumprindo com a minha obrigação, dizendo aos amigos que havia deixado os alunos estudando na biblioteca da faculdade.

No churrasco, fiquei numa mesa com o dono da casa, que é médico; o amigo que estava sendo homenageado, que é policial; um amigo do homenageado, que é advogado e político; e a sua esposa, que é universitária e estuda no período da noite. Entre muita cerveja e pouca carne o assunto era um só: a roubalheira dos nossos políticos e a passividade da sociedade (todos nós) mediante a podridão do episódio do mensalão. Todos estavam revoltados e propondo soluções para o melhor funcionamento da máquina pública e para o resgate da ética entre a classe política.

O dono da casa receitou para o país o seguinte: "precisamos renovar a classe política. Há trinta anos que no Brasil os políticos são os mesmos e há trinta anos que eles fazem as mesmas coisas". Lógico, que todos nós concordamos e assinamos em baixo. Depois disso, surge no grupo o plano da universitária. Segundo ela, "ou resgatamos os valores morais da sociedade ou estaremos condenados, para sempre, ao subdesenvolvimento". Mais uma vez, todos nós concordamos e quase aplaudimos. Principalmente eu, que "sou professor".
Lá para as tantas, o policial homenageado decretou: "o problema do Brasil é a impunidade. Os políticos roubam e nada acontece com eles". Depois disso, falou o político. Começou defendendo a classe, dizendo que "nem todos os políticos são corruptos, mas que alguém deveria, sim, promover uma limpeza nas instituições nacionais e em todos os níveis para o bem geral da nação".

Num dado momento, o telefone do dono da casa tocou e ele se afastou um pouco para atender. Não deu para ouvir o que ele falava, mas era notório que ele vociferava bravo. Cerca de um minuto depois ele retornou à mesa e, com raiva, falou que "não dava para trabalhar com certas pessoas". O telefonema que ele havia recebido era do hospital. Naquela noite ele estava de plantão, mas ele já havia passado no trabalho e, para o meu consolo, havia usado a mesma tática usada por mim na faculdade. Chegou cedo no hospital, visitou alguns pacientes e leu "por cima", os prontuários dos outros. Depois de uma hora foi para casa e deixou a seguinte recomendação: "só me liguem em caso de extrema emergência ou se aparecer pacientes particulares". Sendo assim, era um absurdo a enfermeira lhe telefonar só porque chegara um senhor de sessenta e quatro anos de idade com suspeita de infarto. "Se, ao menos ele estivesse sido diagnosticado, ela poderia me ligar", desculpou-se. Ele "receitou" alguns medicamentos pelo telefone e disse que a enfermeira podia retornar a ligação (se ela tivesse coragem para isso), caso acontecesse alguma coisa.

Na tentativa de aliviar o clima, perguntei ao amigo que estava recebendo a homenagem se ele já havia feito a sua mudança. Ele respondeu que sim e, satisfeitíssimo, contou que a mudança não tinha lhe custado nada. Segundo ele, o dono de uma transportadora lhe havia retribuído "um favor", já que ele, meses antes, tinha "resolvido" uns probleminhas de multas nos seus carros que poderiam lhe custar a habilitação e, até mesmo, a sua empresa!

De repente, a esposa do político liga para uma colega que estava assistindo aula para saber se tinha dado certo "aquele plano". Ou seja, o plano da colega responder a chamada por ela enquanto ela estava no churrasco, pois ela já estava "pendurada nas faltas" na disciplina em questão e não poderia, "por nada", ser reprovada. E, toda feliz, sorriu com a assertiva da colega. O plano havia dado certo. Em um outro momento, o anfitrião pergunta ao político como iria ficar o caso de uma determinada pessoa. Apenas isso. E ele respondeu que tudo estava indo bem. O único problema era que na secretaria almejada já havia alguém concursado, ocupando o cargo que tal pessoa pleiteava, mas que ele não se preocupasse, pois estava estudando uma medida legal (?) para transferir o "dito cujo" de função ou de setor. "Ele é um que não pode ficar de fora, pois foi comprometido com a gente até o fim", finalizou.

Em meio a tudo isso, não deixávamos de falar das CPI's, da corrupção dos políticos e da cumplicidade da sociedade que, apática, não movia uma palha para mudar nada. Chegando em casa fui pensar naquela noite e em tudo o que havia presenciado. De repente, me dei conta que o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro está certo quando diz que: "nós vivemos num ambiente de lassitude moral que se estende a todas as camadas da sociedade e que esse negócio de dizer que as elites são corruptas mas que o povo é honesto é conversa fiada. Nós somos um povo de comportamento desonesto de maneira geral, ou pelo menos um comportamento pouco recomendável". O melhor era que eu não precisava pesquisar em nenhuma fonte bibliográfica para concordar com o escritor. A sua afirmação estava magistralmente retratada no meu comportamento e no comportamento dos meus amigos naquela noite e naquele churrasco que eu havia freqüentado.

Para começar, eu roubei o povo ao fazer de conta que estava dando aula quando na verdade não estava. E o que dizer do anfitrião da festa? Do médico que estava "tirando plantão" e que, portanto, estava ganhando o seu salário e reclamou por ser incomodado, apenas porque um senhor de idade estava com suspeita de infarto? É interessante vermos, também, o caso da universitária, a defensora dos valores morais. E, aqui eu pergunto: quais valores seriam esses? O valor que nós damos ao "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço?" Sim, porque se formos honestos e verdadeiros com nós mesmos, somos obrigados a admitir que, no geral, esses são os nossos valores porque é assim que nós somos e é assim que nós fazemos, com raríssimas exceções.

Os valores que almejamos como ideais, infelizmente, só existem no mundo das nossas idéias e/ou como metas a serem atingidas pelos outros e não por nós.
No caso do policial, ele me mostrou uma coisa bastante óbvia: que é fácil fazer favores com o esforço que não é nosso para sermos merecedores de créditos que também não nos pertencem, para depois declararmos que o nosso país é o país da impunidade, pois os outros, e não nós, são larápios da coisa pública. Por isso que ele resolveu alguns problemas de um amigo, onerando o erário, para ser recompensado depois. Ou seja, roubou o coletivo para ser beneficiado no particular.

A mesma coisa se aplica ao político que, lembrando mais uma vez, é também advogado, defensor da lei e da justiça. Pode? Vergonhosamente, pode sim.
Acredito que mais uma vez o Brasil passa por uma oportunidade de ouro para rever-se como país e sair crescido e melhorado de toda essa crise. O grande problema está nas pessoas. Em mim, em você, nos nossos familiares, colegas, amigos e inimigos, parentes e aderentes. Isso, porque, se quisermos realmente uma nação melhor temos que assumir que nós também somos recebedores do mensalão e que, portanto, cada um de nós também é merecedor de sentar nas cadeiras da CPI.

Recebemos o mensalão quando sonegamos imposto; quando matamos aula e inventamos uma justificativa para não levarmos falta; quando faltamos ao trabalho e fazemos de conta que não faltamos (como eu fiz), ganhando o que é indevido; quando copiamos ou compramos CD's piratas; quando pagamos propinas ao guarda de trânsito para ele não nos aplicar uma multa que ele deveria aplicar; enfim, todos nós, cada um a seu modo e com o seu preço, também é culpado, pessoalmente, por tudo isso que está acontecendo no nosso país.

Finalizando, é bom não esquecermos que os nossos políticos não vieram de Marte; não vieram de uma outra galáxia ou do céu, mas do nosso meio, um meio que é corrompido por nós, pois somos, também, corruptos e corruptores.
É bom não esquecermos, de igual modo, que esse é o real motivo para a sociedade (nós) assistir apática a toda essa decadência, pois no fundo, não é apatia, mas cumplicidade. Nenhum de nós toma uma atitude de mudança porque acreditamos (ou temos a certeza) que se um dia estivermos no lugar dos políticos, faremos a mesma coisa que eles fazem, aumentando o nosso mensalão.

Como disse Freud, "seríamos bem melhores se não quiséssemos ser tão bons", e ele estava certo. Bom seria se tivéssemos a honradez de olhar para essa verdade constantemente.

Pedro Paulo Rodrigues Cardoso de Melo
Psicólogo Clínico, Psicopedagogo e Professor Universitário de Psicologia e Sociologia.