Terça, 07 de Setembro de 2010
 
 
15-12-2006
Sem dicotomia
Sem dicotomia
Por Maurício Rands

Para alguns críticos, a política externa do governo Lula seria "terceiro-mundista", "ideológica" e teria se desviado do seu "leito natural" e dos "valores tradicionais" do Itamaraty. O Brasil teria errado ao fazer campanha ativa para obter vaga permanente num Conselho de Segurança da ONU ampliado e reestruturado.

Também estaria equivocada a ênfase dada à cooperação Sul-Sul, à consolidação do Mercosul e à integração da América do Sul.

As críticas prosseguem quanto à iniciativa do Brasil de articular o G-20 nas negociações na OMC, com o objetivo de mudar a correlação de forças entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. Essa reorientação na estratégia do governo deixaria de explorar as potencialidades de uma relação privilegiada com os principais mercados.

Trata-se de dupla incompreensão. Primeiro, os críticos não percebem que a política do "realismo periférico", segundo a qual os países periféricos deveriam se conformar ao espaço reservado pelo mercado mundial para se beneficiarem da globalização, aumentou nossa vulnerabilidade. Segundo, não percebem que, sob a atual política, nossas exportações para os EUA e a União Européia se expandiram mais que a média mundial. Nossa estratégia tem como objetivos, entre outros, consolidar o Mercosul; renegociar os parâmetros da Alca; reaproximar o Brasil da África e do Oriente Médio; introduzir e consolidar temas sociais na agenda internacional; mudar a correlação de forças nas negociações comerciais multilaterais.

Os críticos se aferram à dicotomia entre investir no Mercosul, na África, nos países árabes, na cooperação Sul-Sul e, ao mesmo tempo, aprimorar relações com países desenvolvidos. O governo provou que ela não existe. O avanço das exportações para os EUA, o Japão, a UE e o Canadá foi de 60,1% de 2002 a 2005, na média do crescimento das exportações mundiais (60%).

MAURÍCIO RANDS é vice- líder do PT na Câmara.
Artigo publicado em 15/12/06 no jornal "O Globo"